Ameal é freguesia do Concelho de Coimbra

7.04.2007

A dança das mães

Às estrelas que nos alumiam
Na beleza incurável das feridas alimentam-se mães sem trégua. Nos rios secos, batem e batem os corações alimentados em sangue frio e espesso. Que é lívido. Que procura as raízes. O coração é um bicho estranho, que vai caminhando gota a gota. E as feridas incautas aproximam-se das mães, imprudentes ao peso de cada sopro. O amor eternamente feroz. E as feridas das mães, são cada vez mais belas. O medo caminha violentamente mais perto, no corpo, na cara, nas vértebras e no ventre onde se abriga com seu volúvel volume, o silencioso amor de mãe. Sob a folhagem da água, mães cansadas da aridez que as toca, incendeiam-se através dos filhos. E os filhos, esse chumbo cravado nas asas, esse projecto que sobre o mar se estende, alimenta as feridas pelos tendões. As mães debicam sobre a areia a sua rota clara, até ao fim do mundo. Como pela última vez. Sobre a montanha, um filho incorpora-se na beleza incurável das feridas, enquanto mães tacteiam a pedra, até ser flor. Por vezes sangram e cantam, secam os olhos, arrancam os sexos e em permanente luta, corpo a corpo, o amor estende-se, mas os gestos são frios, neste caminhar obsceno de pessoas sem frutos. Há-de caber numa gota, todo o tempo, todo o amor, de uma vida sem história.

João Rasteiro
( Amial,27/07/2002)

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