Ameal é freguesia do Concelho de Coimbra

1.11.2009

A pescaria

O sol não se atrevera ainda a mostrar a sua face madrugadora e o galo dormia enroscado na pedrês favorita do harém quando o Fernando acordou, levemente inebriado pelo cheiro a álcool que adocicava a atmosfera da enxerga. Depois de comido o frugal viático, não mais que pão seco e metade de uma sardinha que restara da ceia, empurrados por um copo de palhete; o ainda bamboleante rapaz vestiu-se e arrumou na motorizada (a ronronar como um gato no cio de Janeiro) a telescópica Shakespeare de 6 metros, a ervilhaca, a caixa de material e um saquinho onde, vivazes e nojentas, se remexiam no meio de serradura as larvas de mosca da fruta, mais conhecidas pelos pescadores por asticô.
Já na margem arborizada do pachorrento Mondego, iniciou o que prometia ser pescaria à antiga. Depois de uma manhã passada no tira e põe da linha, atento à corrente da água, ao vento e ao passeio aquático da pequena bóia de cortiça, as expectativas não poderiam ter sido menos defraudadas – como sempre, não ia levar para casa um único barbo, ruivaca ou enguia. Ao meio-dia decidiu regressar e, na ponte da vala, parou à conversa com o Pupazinho - em passo lento para o regular passeio campestre. Apanhaste algum?, atirou o Pupa, a boina espanhola a cobrir a calva luzidia de suor. Uma boga, retorquiu o outro, enfastiado. Pois, pois. Então deixa cá ver isso, gorjeou o Pupa. Homessa! O homem é desconfiado... Deitei-a ao rio! Era tão grande que não cabia na frigideira, e abalou de rompante, arrojando metade da poeira da estrada para o corpo afunilado do passeante.
(Texto enviado por "Habitante do Ameal")

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